Moro e trabalho em Madrid há quase 1 ano e meio e muitas vezes quando converso com amigos e ex-colegas, me perguntam sobre como é trabalhar por aqui, já que as empresas europeias normalmente oferecem produtos e serviços mais focadas no mercado interno e não são tão conhecidas fora do velho continente.

Aviso de antemão que as opiniões que eu vou mostrar nesse post podem ser incompletas e incorretas, já que são baseadas no ponto de vista míope de alguém que não está aqui há tanto tempo e não conhece tanta gente de outras empresas quanto gostaria.

Vários países da Europa ainda vêm sofrendo com a crise que abalou todo o mundo há alguns anos, esses países são chamados perjorativamente de PIGS (Portugal, Ireland, Italy, Greece e Spain) e essa crise provoca muito desemprego, problemas sociais e políticos mas no meu ponto de vista já não afeta mais o mercado de TI, que está com a demanda sempre crescente, sobrando vagas e faltando profissionais qualificados.

O número de startups que surgem na Europa é bem mais discreto do que nos EUA e acredito que parte disso se deve à força dos direitos trabalhistas que protege muito o trabalhador e dificulta a vida e a dinamicidade necessária para uma startup, que a princípio não pode garantir todos os direitos aos seus empregados. Só como exemplo, a empresa onde trabalho precisou gastar bastante tempo e dinheiro com advogados para conseguir o direito de oferecer stock options para os empregados já que a legislação trabalhista local não está preparada para esse tipo de “bônus” que nas startups normalmente é a principal parte da remuneração dos envolvidos.

Outra coisa que torna a criação de startups mais complicada na Europa é o maior número de restrições que a União Europeia impõe em termos de privacidade e manipulação de dados pessoais na internet. Um exemplo simples disso é que o Facebook mesmo com um grande número de usuários no continente não tem um data center local, pois caso tivesse teria que obedecer a essa legislação, o que não é o caso quando, por exemplo, determina que a idade mínima dos seus usuários é de 13 anos (lei americana) e na Europa a lei diz que a idade mínima deve ser de 14 anos.

Mas nem tudo é mais difícil! Muitas empresas, fundações e projetos importantes para o desenvolvimento da internet e tecnologia em geral são europeus, como Opera (Noruega), Nokia e Linux (Finlândia), Instituto Fraunhofer (criador da MP3) (Alemanha), Skype (criada por suecos mas sediada em Luxemburgo)  sem contar com figuras como Dijkstra (Holanda) e Turing (Inglaterra), etc… e de fato existem startups europeias de sucesso atualmente, sendo a Rovio (Finlândia), criadora do jogo Angry Birds, a que está mais na crista da onda agora e também a sueca Spotify, dona de um serviço de música sob-demanda de muito sucesso na Europa e que chegou há cerca de dois meses aos EUA. Além disso, também existem umas sedes fantásticas do Google (destaco Zurique e Londres) e uma da Mozilla (Paris), fora várias sedes de outras empresas americanas que estão se instalando em Dublin.

Especificamente na Espanha, a Tuenti é a maior empresa da “geração 2.0″, com cerca de 230 empregados, mas existem também outras empresas de sucesso e startups que prometem bastante, e entre elas eu destacaria:

  • Socialpoint - Uma startup de Barcelona que em julho recebeu um investimento de 2.5 milhões de euros e que faz jogos para Facebook, entre eles o mais famoso é o Social Empires.
  • Youzee – Ainda não está com seu serviço aberto ao público, mas basicamente é um servicio de V.O.D. a la Netflix, melhorado, que está sendo desenvolvido principalmente por ex-empregados do Tuenti.
  • Vizzuality – Eu sou fã do trabalho desses caras, é uma empresa pequena de Madrid que trabalha desenvolvendo interfaces bonitas para visualização de dados científicos e recentemente fizeram um projeto com o Google para um infográfico sobre a evolução da Web
  • 11870.com – Um Yelp! a la espanhola
  • idealista – Site de anúncios imobiliários espanhol que tem sede também na Itália e Portugal
  • E obviamente não poderia deixar de falar da Tuenti, que em números gerais de usuários já foi superada pelo Facebook, mas continua sendo a #1 entre os adolescentes e está mais focada nesse nicho de mercado mais jovem, além de que com a aquisição da Telefónica também tem focado muito no mercado mobile oferecendo uma operadora de celular, chamada Tu, para seus usuários com várias vantagens. (que é o projeto em que eu trabalho já a quase um ano)

Salários
Comparar salários entre países é bastante complicado. Custo de vida, imposto de renda e serviços oferecidos “gratuitamente” pelo governo variam muito e normalmente a relação salário/custo de vida nas principais capitais e grandes cidades do mundo são equivalentes, então comparar os números friamente nem sempre te dá uma sensação real de como se vive em determinado local, mas vou citar uma faixa salarial que tenho visto ser tendência por aqui.

Os salários base de Software Engineer em empresas decentes na maioria dos países europeus variam de ~30 mil € anuais para programadores Jr./Associate a cerca de 50 mil € para Sênior (é uma estimativa feita com um pequeno espaço amostral onde, na realidade, certamente há muitos pontos fora da curva). Em alguns países existe uma espécie de décimo-terceiro que seria mais 8% desse valor por fora e em outros casos algumas empresas oferecem pagamentos variáveis de acordo com a performance do empregado que pode render até uns 20% a mais se o cara for um top-performer. Além disso, também existem as stock options que já mencionei e algumas empresas oferecem uma “home leave policy” se te contratam enquanto você mora em outro país e te dão pelo menos uma passagem por ano para ir ao seu país.

Com a crise que está assolando o continente está cada vez mais difícil conseguir visto de trabalho, mas se você pensa em tentar, eu creio que a experiência vale muito a pena!